Os carequinhas estão sempre por ali. Correndo. Brincando. Ou apenas sentados, esperando. O prédio está cheio deles. O prédio me parece mais triste e sem vida do que os próprios carequinhas. E agora colocaram essa árvore em frente aos elevadores. Uma árvore de natal. No lugar das bolas coloridas são esses cartõezinhos. E em cada cartão há o nome de um carequinha. Não que eu seja insensível. Apenas sou como a grande maioria dos seres-humanos. Sou preguiçoso, não tenho dinheiro, não tenho tempo nem cabeça para esse papo de solidariedade. Mas dessa vez entrei no jogo e peguei um cartão. Escolhi um que estava no lado de trás da árvore. Aposto que eles colocam os carequinhas mais bonitinhos e amáveis na frente. Não, não venha me dizer que a discriminação tira férias no natal.
Moisés Lima Sena. 7 anos. É o que dizia no cartão. Pensei no que o tal Moisés gostaria de ganhar. Brinquedo. Ele tinha razão. Brincar é umas das coisas boas da vida. Pensei em algo que Moisés pudesse brincar sozinho, na sua, para matar o tempo e agüentar o tranco. Então comprei um desses mini-games. De futebol. 40 conto. Achei caro. Mas era um mini-game bacana, da Nintendo. E também era meu primeiro ato de solidariedade do ano. Tinha que fazer bonito.
A festa de Natal dos carequinhas era na própria clínica, que funciona no lobby do prédio. Uma festinha animada, cheia de carequinhas, todos muito parecidos. Faziam uma ciranda. Tinha um palhaço no meio. Música da Xuxa. Havia até uma carequinha vestida de bailarina. A putinha do balcão me apontou quem era o Moisés. O moleque devia mesmo ser parada dura, o tipo anti-social. Não brincava com os outros carequinhas. Estava sentado ao lado da mãe.
- E aí, cara – perguntei – você que é o Moisés?
Moisés não respondeu porra nenhuma. Olhou para mim e para a mãe. A mãe era gostosinha. Mas parecia cansada.
- Acho que você não é o Moisés – eu disse – Você tem cara de professor Xavier. Acertei?
- Diga seu nome, Moisés – disse a mãe – diz a ele que você é o Moisés, diga.
Moisés olhou para mim, riu e cochichou alguma coisa no ouvido da mãe. O pequeno skinhead já estava me sacaneando, e eu já estava de saco cheio. Então lhe entreguei o presente, a mãe agradeceu, eu peguei um pãozinho e um guaraná e saí dali. No mesmo dia, o Camaça, que trabalha no estúdio da nova agência, disse que também deu para um carequinha um mini-game, de futebol, da Nintendo. E que só pagou 9,90 nas Americanas.
Mas eu não podia reclamar. Foi um bom ano. O Flamengo sagrou-se o primeiro Hexacampeão brasileiro de futebol masculino. E eu continuo por aqui, fingindo ser redator. Mas entrei na nova agência. Uma boa agência. Boa até demais. Com esse tipo gente alegre demais e cheia de energia, que fica inventando joguinhos. Agora inventaram esse amigo secreto e inimigo secreto. Tirei um cara que confessou curtir esse lance da putinha mijar na cara dele. Devo ganhar um disco de pagode, um panetone ou uma camisa do Vasco. Sei que vou me fuder nessa história. Gordo só se fode, mesmo no natal.
Por em falar em natal, hoje, quando deixei a agência, avistei Moisés e sua mãe na lanchonete. Quer dizer, Moisés estava lanchando. A mãe estava em pé, de frente para a rua, de braços cruzados. Olhava as luzes de natal. Talvez estivesse se perguntando o que eu sempre me pergunto todo natal. Será que estarei vivo no próximo natal? Enquanto isso Moisés brincava com o copo de Coca-Cola. Nenhum sinal do mini-game. Sacaninha careca.
O Espalitando vai dar um tempo.
No mais, feliz natal a todos. E que em 2010 dê tudo certo.
14.12.09
29.11.09
Eu Precisava Peidar
Acordei com as facadas. O corpo entrevado e as facadas nas costas. Eram os gases. Já não bastavam as crises no rim, volta e meia me vinham esses gases. Presos ao meu corpo. Esmagando as minhas costas. Levantei. Fui para a internet. Havia um e-mail. Uma putinha dizia que queria me entrevistar para um trabalho de faculdade. Foda-se. Com certeza, ela não sentia as malditas facadas. Era sábado. Eu podia ficar na cama. Eu e minha dor. Mas precisava discutir um jingle na casa do Panela. Passei na farmácia e comprei Luftal. Encontrei Seu Edilson no ponto. Vendia seus pasteis gordurosos.
- Paulão, Paulão, Paulão. E o Mengão, Paulão? Parece que agora vai.
- Tomara, Seu Edilson. Tomara.
- Tá com as costas fudida, Paulão?
- Umas dores aí.
- Ah, já tive assim. Quando caí da balaustrada lá na Barra. As puta que me ajudaram.
- Vou lá, Seu Edilson.
- Sério. Se não fosse as puta, eu tava aleijado.
Conheço Panela de longa data. Amigos de infância. Estudamos juntos. Diz ele que hoje é músico. Ele acredita nisso. Isso que é importante. Então quando aparecem esses jingles baratos, Panela me chama para ajudar nas letras. Assim que cheguei, fui direto à cozinha, pegar um copo d'água para tomar o remédio.
- Essa mulher tá enchendo o saco, Bono – disse Panela –, ela disse que quer um jingle mais picante.
- Manda ela sentar em minha pica.
Conversamos um pouco sobre a letra e sobre o ritmo. E enquanto Panela arranhava o jingle no teclado, fiquei vasculhando seus arquivos de sacanagem. A maioria fotos caseiras. Aquilo de sempre. Putinhas arreganhadas e chupando rolas em quartos de motéis baratos. Putinhas amadoras. Caixa do Bradesco, Aluna de Direito da FIB, balconista da C&A. Depois cliquei em outra pasta. Mais uma caralhada de fotos. Mas as meninas pareciam ser mais novas. Menininhas sem peito. Calcinha de algodão. Em poses estáticas. Aquilo eram crianças. Uma delas não parecia ter mais de nove anos. Gelei com aquela porra toda. E senti mais uma pontada de dor em minhas costas.
- Que merda é essa, Panela?
- O quê?
- Essas gurias? Você é algum tipo de pedófilo, caralho?
- Ah, isso foi um cara que me passou.
- Que cara, porra?
- É de Feira. Você não conhece. Mandou no meio de outras aí.
- E o que é que você tá fazendo com essa porra?
- Eu vou deletar, porra. É porque esqueci.
Panela estava branco. E suava. O Luftal demorava de fazer efeito. Olhei mais uma vez para a foto. A menina não tinha nem pentelhos.
- Panela.
- Hum?
- Eu preciso peidar.
Panela riu e voltou para o teclado. Não demoramos muito. Em resumo, tiramos do jingle a parte que falava de paz e repetimos o refrão mais vezes. Ninguém quer saber de paz.
Deixei a casa de Panela antes do meio-dia. Peguei o busu com a esperança de aparecer algum baleiro vendendo Trident. Um chicletinho também ajuda a soltar uns arrotos. Era disso que eu precisava. Peidar ou arrotar. Nada demais. Nada mais humano. Mas vá sair por aí dizendo que está com gases e precisa peidar. “Hi, ele falou peido”, “Bono, você é podre”. Deixa eu dizer uma coisa. Somos todos podres. Até os bonitos. Pelo menos por dentro. Sabe aquela loirinha rica de olhos verdes e pele de bebê? Pois é. Também peida. Pior. Peida e faz cocô. E digo mais. O cheiro não lembra nada Dolce Gabbana. Pensei em Panela. Nos conhecemos na quarta série. Lembro do primeiro dia de aula. Eu disse, você parece o Topo Gigio. Ele disse, e você é gordo. Lembrei do email da putinha que queria me entrevistar. Ela podia ser gostosa, quem sabe. O ônibus chacoalhava sobre as ruas de Salvador. Eu podia sentir as facadas flutuando pelas minhas costas. Lá fora, vi quando um carinha tropeçou e partiu a sandália. Ele olhou para trás, largou as duas sandálias e seguiu em frente, descalço. Eu sempre quis saber como surgiam as sandálias perdidas pela rua.
- Paulão, Paulão, Paulão. E o Mengão, Paulão? Parece que agora vai.
- Tomara, Seu Edilson. Tomara.
- Tá com as costas fudida, Paulão?
- Umas dores aí.
- Ah, já tive assim. Quando caí da balaustrada lá na Barra. As puta que me ajudaram.
- Vou lá, Seu Edilson.
- Sério. Se não fosse as puta, eu tava aleijado.
Conheço Panela de longa data. Amigos de infância. Estudamos juntos. Diz ele que hoje é músico. Ele acredita nisso. Isso que é importante. Então quando aparecem esses jingles baratos, Panela me chama para ajudar nas letras. Assim que cheguei, fui direto à cozinha, pegar um copo d'água para tomar o remédio.
- Essa mulher tá enchendo o saco, Bono – disse Panela –, ela disse que quer um jingle mais picante.
- Manda ela sentar em minha pica.
Conversamos um pouco sobre a letra e sobre o ritmo. E enquanto Panela arranhava o jingle no teclado, fiquei vasculhando seus arquivos de sacanagem. A maioria fotos caseiras. Aquilo de sempre. Putinhas arreganhadas e chupando rolas em quartos de motéis baratos. Putinhas amadoras. Caixa do Bradesco, Aluna de Direito da FIB, balconista da C&A. Depois cliquei em outra pasta. Mais uma caralhada de fotos. Mas as meninas pareciam ser mais novas. Menininhas sem peito. Calcinha de algodão. Em poses estáticas. Aquilo eram crianças. Uma delas não parecia ter mais de nove anos. Gelei com aquela porra toda. E senti mais uma pontada de dor em minhas costas.
- Que merda é essa, Panela?
- O quê?
- Essas gurias? Você é algum tipo de pedófilo, caralho?
- Ah, isso foi um cara que me passou.
- Que cara, porra?
- É de Feira. Você não conhece. Mandou no meio de outras aí.
- E o que é que você tá fazendo com essa porra?
- Eu vou deletar, porra. É porque esqueci.
Panela estava branco. E suava. O Luftal demorava de fazer efeito. Olhei mais uma vez para a foto. A menina não tinha nem pentelhos.
- Panela.
- Hum?
- Eu preciso peidar.
Panela riu e voltou para o teclado. Não demoramos muito. Em resumo, tiramos do jingle a parte que falava de paz e repetimos o refrão mais vezes. Ninguém quer saber de paz.
Deixei a casa de Panela antes do meio-dia. Peguei o busu com a esperança de aparecer algum baleiro vendendo Trident. Um chicletinho também ajuda a soltar uns arrotos. Era disso que eu precisava. Peidar ou arrotar. Nada demais. Nada mais humano. Mas vá sair por aí dizendo que está com gases e precisa peidar. “Hi, ele falou peido”, “Bono, você é podre”. Deixa eu dizer uma coisa. Somos todos podres. Até os bonitos. Pelo menos por dentro. Sabe aquela loirinha rica de olhos verdes e pele de bebê? Pois é. Também peida. Pior. Peida e faz cocô. E digo mais. O cheiro não lembra nada Dolce Gabbana. Pensei em Panela. Nos conhecemos na quarta série. Lembro do primeiro dia de aula. Eu disse, você parece o Topo Gigio. Ele disse, e você é gordo. Lembrei do email da putinha que queria me entrevistar. Ela podia ser gostosa, quem sabe. O ônibus chacoalhava sobre as ruas de Salvador. Eu podia sentir as facadas flutuando pelas minhas costas. Lá fora, vi quando um carinha tropeçou e partiu a sandália. Ele olhou para trás, largou as duas sandálias e seguiu em frente, descalço. Eu sempre quis saber como surgiam as sandálias perdidas pela rua.
15.11.09
A Mulher Mais Rabuda da Cidade
Lojas de conveniências, essas dos postos de gasolina, são uma facada. Mas era minha única opção. Já passava de uma da tarde. Sentia fome. É impressão minha ou nessas lojas tudo parece mais gostoso? O mesmo pacote de Bono que tem em qualquer mercado, ali, naquela prateleira, ao lado do Cookies da Nabisco, parece mais gostoso, parece brilhar mais. A diferença é que é o triplo do preço. Eu procurava um sanduíche. Havia um monte deles naquela geladeira. Parecia uma geladeira mágica. Havia os de ricota, mas não sou viado. Peguei um de filé mignon. Fui até a outra geladeira mágica e peguei uma Coca-Cola. Foi quando vi aquela bunda. E meu pau subiu. A mulher tinha uma bunda, que vou lhe dizer. A loira parecia uma daquelas dançarinas do Faustão. Era um chicote grande e matematicamente perfeito. A cavala vestia um jeans apertado, que era possível perceber a calcinha enterrada no fofinho. Fingi olhar o preço do pão de mel só para ver aquele rabo mais de perto. A jumenta pegou um Doritos. Era uma safada. Se ela me desse uma chance, não ia ter muita conversa. Eu falaria logo, de quatro, de quatro, fica logo de quatro, pelo amor de Deus. Mas acho que eu teria bater uma bronha antes. Senão era botar e gozar. Se bem que nem sei se eu conseguiria comer aquela jega. Tanta bunda, tanta carne, esse meu pauzinho de merda talvez nem alcançasse a terra prometida. Pensei até em dar minha Coca-Cola a ela. Quando ela perguntasse, o que é isso? Eu diria, parabéns, você é a mulher mais rabuda da cidade. Foi quando escutei:
- Encosta aí, gordo.
Era um assalto na loja. Um assalto de verdade. Dois caras. Um deles vestia uma camisa do Flamengo, uma camisa antiga, acho que de 95. Estavam armados. Enquanto o outro pegava a grana do caixa, o flamenguista mantinha os clientes e outros funcionários encostados no balcão do cachorro-quente. Sou frouxo como a porra nessas horas. Lembrei de outros assaltos. Pensei que fosse morrer. Até comecei a rezar. Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso, aquele rabo, seja o vosso nome, bundão da porra, meu Deus, Pai nosso que estais, seja feita a vossa, te lasco toda, vagabunda, seja feita a vossa vontade, santificado seja aquele rabo que estava bem na minha frente. Nunca comi e sei que nunca comerei uma mulher daquelas. E se eu pedisse com humildade? Por favor, deixa eu te comer, por favor, por favor, só uma vezinha, na moral, eu meto, tiro e pronto, fica só entre a gente, ninguém vai saber que você deu sua bunda linda e maravilhosa para um gordo feio e asqueroso. Se eu comesse aquele rabo, poderia levar dois tiros nessa minha barriga mole e nojenta, que já teria cumprido meu papel nesse mundo.
- O celular, gordo, passa o celular – disse o flamenguista.
Entreguei meu celular.
- Puta que pariu, pode ficar com essa porra.
- Foi mal, cara. Só tenho esse.
Então os caras terminaram o trabalho. Saíram correndo em direção à Pituba. Eu estava vivo ainda. Aos poucos os ânimos se acalmaram. Só a putinha do caixa ainda estava chorando. A mulher mais rabuda da cidade perdeu o celular, mas pagou seu Doritos e deu o fora. Fui até o caixa. Aproveitei e peguei um Trident. Do verdinho, sabor planta. Um sanduíche, uma Coca-Cola e um Trident. Dava R$ 8,30. Passei o cartão. A chorona disse, desculpa, senhor, mas o cartão não foi autorizado. Era fim de mês. Então dei 1,30 à putinha e levei o chiclete.
- Encosta aí, gordo.
Era um assalto na loja. Um assalto de verdade. Dois caras. Um deles vestia uma camisa do Flamengo, uma camisa antiga, acho que de 95. Estavam armados. Enquanto o outro pegava a grana do caixa, o flamenguista mantinha os clientes e outros funcionários encostados no balcão do cachorro-quente. Sou frouxo como a porra nessas horas. Lembrei de outros assaltos. Pensei que fosse morrer. Até comecei a rezar. Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso, aquele rabo, seja o vosso nome, bundão da porra, meu Deus, Pai nosso que estais, seja feita a vossa, te lasco toda, vagabunda, seja feita a vossa vontade, santificado seja aquele rabo que estava bem na minha frente. Nunca comi e sei que nunca comerei uma mulher daquelas. E se eu pedisse com humildade? Por favor, deixa eu te comer, por favor, por favor, só uma vezinha, na moral, eu meto, tiro e pronto, fica só entre a gente, ninguém vai saber que você deu sua bunda linda e maravilhosa para um gordo feio e asqueroso. Se eu comesse aquele rabo, poderia levar dois tiros nessa minha barriga mole e nojenta, que já teria cumprido meu papel nesse mundo.
- O celular, gordo, passa o celular – disse o flamenguista.
Entreguei meu celular.
- Puta que pariu, pode ficar com essa porra.
- Foi mal, cara. Só tenho esse.
Então os caras terminaram o trabalho. Saíram correndo em direção à Pituba. Eu estava vivo ainda. Aos poucos os ânimos se acalmaram. Só a putinha do caixa ainda estava chorando. A mulher mais rabuda da cidade perdeu o celular, mas pagou seu Doritos e deu o fora. Fui até o caixa. Aproveitei e peguei um Trident. Do verdinho, sabor planta. Um sanduíche, uma Coca-Cola e um Trident. Dava R$ 8,30. Passei o cartão. A chorona disse, desculpa, senhor, mas o cartão não foi autorizado. Era fim de mês. Então dei 1,30 à putinha e levei o chiclete.
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Mulher rabuda
1.11.09
Mais do Mesmo
O de sempre. Me arranjaram mais uma entrevista de emprego. Saí uma hora antes. Estava sentado no ponto quando a putinha veio e sentou ao meu lado.
- Oi – ela disse.
Pronto, pensei, vou ser assaltado. Mulheres bonitas não falam comigo assim, do nada.
- Oi – respondi.
- Não tá lembrado de mim? – ela disse
Porra, pensei, nunca me lembro de ninguém.
- Da Academia do Corpo – ela disse – malhamos juntos um tempo. Depois você sumiu.
- Ah, claro, da academia. Me lembro de você.
- Era engraçado, você reclamava de tudo, os aparelhos, até da música, lembra?
Claro, pensei, agora lembro bem de você, gostosa, lembro que bati umas duas em sua homenagem.
- É – eu disse – esse negócio de academia me irrita um pouco.
- Ah, lá vem meu ônibus – ela disse – tchau.
- Tchau.
Quando vi a putinha de costas, subindo no ônibus, lembrei que não bati apenas duas, mas sim umas sete bronhas em sua homenagem.
Logo depois passou o velho Pituba. Não estava cheio. Mas não havia muitas opções. Sentei ao lado de uma mulher sem graça. Mais uma entrevista de emprego. Não custava nada tentar. A não ser o dinheiro do busu. 2,20 para ir. 2,20 para voltar. Se ao menos o cobrador fosse o Vitorinha. Um velho amigo cobrador de ônibus. Ele tinha um esquema com um cartão de estudante. Passava o cartão na máquina e dizia, pode passar, Flamenguinho. Eu só precisava pagar um pouco mais da metade da passagem. Se fosse hoje, por exemplo, eu daria 1,50 e ficaria tudo certo. O esquema era só para os camaradas. O motorista também estava no jogo. Nunca fui muito adepto desses esquemas. Mas é aquela coisa, donos de empresas de ônibus têm mais que se fuder. A mulher ao meu lado, a sem graça, se levantou e tentou abrir a janela. Não conseguiu. Fingi que não vi. Vai que tento abrir a porra da janela e não consigo. Ficaria todo mundo do busu pensando, olha só, que gordo lerdo. Mais adiante entrou um carinha vendendo paçocas e jujubas. Esses caras, os baleiros, quando não há crianças por perto, sempre vêm pro meu lado. Fingi que não o vi. Logo depois chegou meu ponto.
Era um prédio moderno. Bacana. Duas torres e tal. Havia um mal encarado no balcão da recepção. Terno e gravata. “Agência de Comunicação é décimo primeiro, não é campeão?” – perguntei. Ele confirmou com a cabeça. Havia dois carinhas no hall do elevador. Um era office-boy, branco e baixinho. O outro era alto, negro, gordinho e tinha cara de abestalhado. Entramos os três no elevador.
- Você conhece o negão da recepção? – me perguntou o gordinho.
- Não.
- Ele te deixou passar na boa. Pra mim ele pediu meu RG.
O boyzinho com cara de jóquei olhou para trás, sorriu e deixou o elevador no terceiro andar.
- Anotou meu RG e gravou meu rosto numa câmera – disse o gordinho.
Quase mando o gordinho deixar de viadagem e acordar para a vida. Quase digo a ele que o mundo é uma lata lixo repleta de ratos. E que apesar de serem todos ratos, alguns são mais nojentos que os outros, é o caso dos negros, dos gordos, dos viados e dos caolhos. E era isso que as pessoas achavam dele, o viam como um grande e nojento tolete preto de bosta. Quase digo que esse papo de Obama é uma puta balela. Não há nada de novo. A sacanagem continua. Os olhares atravessados continuam. As piadas continuam quando ele sai da sala. Quase que digo que tem pessoas que não fodem com negros por nojo ou princípio. Quase digo que ele era um bandido em potencial não apenas para o porteiro, mas para a copeira, o encanador, a faxineira, o advogado, a publicitária, o engenheiro, o dono do prédio, o dono da rua, o prefeito, o governador e o turista. Se vacilar, até a mãe dele o condenava por ter cabelo ruim. Eu queria dizer para o gordinho que ele não ligasse, mandasse o mundo todo se fuder. Mas como é que não liga, se essa porra dói feito pedra no rim? Quer dizer, nem tanto, mas dói pra caralho.
- É a segunda vez que venho aqui – menti pro gordinho.
- Segunda vez?
- Ontem ele me pediu a carteira e filmou minha cara.
- Ah...
- Entrevista de emprego...
- Ah, tá...
- Essas dinâmica de grupo, a semana toda, sei que não vou passar...
- Pô, boa sorte...
Deixei o elevador no décimo primeiro. Sala 1103. Apertei a campainha. A porta se abriu. Eu disse, boa tarde, a putinha da recepção respondeu. Outra entrevista, pensei, essas coisas cansam.
- Oi – ela disse.
Pronto, pensei, vou ser assaltado. Mulheres bonitas não falam comigo assim, do nada.
- Oi – respondi.
- Não tá lembrado de mim? – ela disse
Porra, pensei, nunca me lembro de ninguém.
- Da Academia do Corpo – ela disse – malhamos juntos um tempo. Depois você sumiu.
- Ah, claro, da academia. Me lembro de você.
- Era engraçado, você reclamava de tudo, os aparelhos, até da música, lembra?
Claro, pensei, agora lembro bem de você, gostosa, lembro que bati umas duas em sua homenagem.
- É – eu disse – esse negócio de academia me irrita um pouco.
- Ah, lá vem meu ônibus – ela disse – tchau.
- Tchau.
Quando vi a putinha de costas, subindo no ônibus, lembrei que não bati apenas duas, mas sim umas sete bronhas em sua homenagem.
Logo depois passou o velho Pituba. Não estava cheio. Mas não havia muitas opções. Sentei ao lado de uma mulher sem graça. Mais uma entrevista de emprego. Não custava nada tentar. A não ser o dinheiro do busu. 2,20 para ir. 2,20 para voltar. Se ao menos o cobrador fosse o Vitorinha. Um velho amigo cobrador de ônibus. Ele tinha um esquema com um cartão de estudante. Passava o cartão na máquina e dizia, pode passar, Flamenguinho. Eu só precisava pagar um pouco mais da metade da passagem. Se fosse hoje, por exemplo, eu daria 1,50 e ficaria tudo certo. O esquema era só para os camaradas. O motorista também estava no jogo. Nunca fui muito adepto desses esquemas. Mas é aquela coisa, donos de empresas de ônibus têm mais que se fuder. A mulher ao meu lado, a sem graça, se levantou e tentou abrir a janela. Não conseguiu. Fingi que não vi. Vai que tento abrir a porra da janela e não consigo. Ficaria todo mundo do busu pensando, olha só, que gordo lerdo. Mais adiante entrou um carinha vendendo paçocas e jujubas. Esses caras, os baleiros, quando não há crianças por perto, sempre vêm pro meu lado. Fingi que não o vi. Logo depois chegou meu ponto.
Era um prédio moderno. Bacana. Duas torres e tal. Havia um mal encarado no balcão da recepção. Terno e gravata. “Agência de Comunicação é décimo primeiro, não é campeão?” – perguntei. Ele confirmou com a cabeça. Havia dois carinhas no hall do elevador. Um era office-boy, branco e baixinho. O outro era alto, negro, gordinho e tinha cara de abestalhado. Entramos os três no elevador.
- Você conhece o negão da recepção? – me perguntou o gordinho.
- Não.
- Ele te deixou passar na boa. Pra mim ele pediu meu RG.
O boyzinho com cara de jóquei olhou para trás, sorriu e deixou o elevador no terceiro andar.
- Anotou meu RG e gravou meu rosto numa câmera – disse o gordinho.
Quase mando o gordinho deixar de viadagem e acordar para a vida. Quase digo a ele que o mundo é uma lata lixo repleta de ratos. E que apesar de serem todos ratos, alguns são mais nojentos que os outros, é o caso dos negros, dos gordos, dos viados e dos caolhos. E era isso que as pessoas achavam dele, o viam como um grande e nojento tolete preto de bosta. Quase digo que esse papo de Obama é uma puta balela. Não há nada de novo. A sacanagem continua. Os olhares atravessados continuam. As piadas continuam quando ele sai da sala. Quase que digo que tem pessoas que não fodem com negros por nojo ou princípio. Quase digo que ele era um bandido em potencial não apenas para o porteiro, mas para a copeira, o encanador, a faxineira, o advogado, a publicitária, o engenheiro, o dono do prédio, o dono da rua, o prefeito, o governador e o turista. Se vacilar, até a mãe dele o condenava por ter cabelo ruim. Eu queria dizer para o gordinho que ele não ligasse, mandasse o mundo todo se fuder. Mas como é que não liga, se essa porra dói feito pedra no rim? Quer dizer, nem tanto, mas dói pra caralho.
- É a segunda vez que venho aqui – menti pro gordinho.
- Segunda vez?
- Ontem ele me pediu a carteira e filmou minha cara.
- Ah...
- Entrevista de emprego...
- Ah, tá...
- Essas dinâmica de grupo, a semana toda, sei que não vou passar...
- Pô, boa sorte...
Deixei o elevador no décimo primeiro. Sala 1103. Apertei a campainha. A porta se abriu. Eu disse, boa tarde, a putinha da recepção respondeu. Outra entrevista, pensei, essas coisas cansam.
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18.10.09
Uma Porra de Soja
O ar-condicionado da agência, quebrado. Eu trabalhava os mesmos títulos. Os mesmos clientes. Era sexta-feira em Salvador. Eu não vestia branco. Nem dançaria pagode quando a noite chegasse. Mas esperava dar meio dia. Para bater um gigantesco prato de caruru, vatapá, entupido de farofa de dendê. Quando o telefone tocou. Era o Man.
- E aí, Man – eu atendi.
- E esse almoço, man?
- Tava pensando no de sempre. Lá em Dona Irene. Aquele vatapá fudendo.
- Paty Guaraná achou um lugar novo.
- Detesto esse lance de lugar novo.
- Vamos lá, man. A gente bota o papo em dia.
- Como é o nome dessa porra?
- Acho que é Açafrão, man.
- Açafrão?
- Gergelim. Acho que é Gergelim. Relaxe, man. A gente te pega aí.
- Merda.
Espinafre. Era o nome do lugar. Bem no meio do Rio Vermelho. Onde toda loucura pode acontecer. Para chegar ao local, você tinha que subir uma escadaria de pedras. No meio de uma mata. Mata mesmo. Araras, bicho preguiça, lobo guará, plantas alucinógenas, essas coisas. Lá dentro, tudo em tons pastéis, tudo zen, como eles dizem. No buffet, só havia folhas, raízes, grãos, essas palhaçadas. Botei no prato uma porra de soja, a única coisa que me parecia comestível. O cara que pesava os pratos, ele usava uma bata e tinha uma tatuagem na testa, olhou para mim com aquela cara, "seja bem-vindo, homem obeso, nós temos a salvação para você". Filho da puta.
Sentamos à mesa.
- Porra, Paty – eu disse –, comida vegetariana é foda.
- Pense que isso vai lhe fazer bem, Bono.
- O que é isso aí, man?
- Sei lá. Uma porra lá de soja.
- Olha só, tem até musiquinha – disse Paty.
- Enya – disse Man.
- Quando a gente tava subindo, vocês viram a cara da galera que tava descendo? Pareciam dopados. Em transe. Como se fossem zumbis.
- Vocês tão sentido esse cheirinho? – disse Paty – Acho que é sândalo.
- Sândalo o caralho – eu disse – aposto que eles colocam alguma porra na comida.
- Não começa não, Bono – disse Paty.
- Eu lembro que eu só estudava ouvindo Enya, man. Segundo grau. Bons tempos, man.
- É sério – eu disse –, olhe ao redor, Paty. Aqui só tem porra-louca. Olha aquele carinha, a barba cheia de trança.
- Mas tem umas gatas aqui, man.
- Esquece. Tudo com cabelo no suvaco.
- Gente, vamos pedir alguma coisa pra beber – disse Paty.
Então veio o garçom. Um velho de cabelo grande e branco. Tinha uns sete colares pendurados no pescoço. E acho que também tinha os olhos vermelhos.
- Eu quero um suco de abacaxi com hortelã – disse Paty.
- Suco de laranja, man.
- Uma Coca-Cola, só gelo.
- Não temos refrigerantes, senhor.
- Porra, só tem suco?
- Perfeito, sucos e chás.
- Porra, me vê um suco de limão.
- Perfeito.
- Não precisa colocar nada dentro. Só quero o suquinho mesmo, na manha.
- Perfeito.
Assim que o pajé saiu, continuamos a conversa.
- E esse feriadão, man?
- Eu tô branca demais, preciso de uma praia – disse Paty.
- Vou ficar em casa – eu disse.
- Porra de ficar em casa, man. Vamos pra Chapada.
- É uma boa – disse Paty.
- Porra de Chapada.
- Man, tem cada trilha de fuder.
- Porra de trilha. Eu sou algum sacana?
- Não adianta, Man – disse Paty – Bono não gosta de nada.
- Mas vale à pena, man. A gente encontra cada cachoeira do caralho.
Foi nessa hora que o Gandalf chegou com as nossas garapas.
- Sim, e depois? – perguntei a Man.
- Depois o quê, man?
- Depois da cachoeira, cacete, faz o quê?
- Depois volta pra pousada, Bono! – disse Paty!
- Esse é o problema. Você anda, anda, anda, escala, desce, pula, se fode todo pra encontrar uma porra de uma cachoeira. Grandes merdas. Mas vamos dizer que é uma cachoeira fudendo, linda, essa porra toda. Aí você toma banho na sua cachoeira, beleza, aí depois tem que andar tudo de novo, voltar a porra toda, se fuder tudo de novo. O saldo é negativo. Se por acaso, depois da cachoeira, viesse uma porra de um helicóptero, me pegasse e me levasse de volta pra pousada, tudo bem. Mas não, tem que andar tudo de novo. Pra ficar a noite toda passando Hipoglós no rabo, com a perna pra cima e você...porra, um duende!
- Hum?
- Um duende, porra. Eu vi um duende. Correndo ali fora!
- Ok, nada de Chapada – disse Paty.
- Eu não tô entendendo nada, man. Você quer dizer que tem duende na Chapada?
- Porra, eu quero dizer que aquele velho sacizeiro desgraçado não botou açúcar na porra do meu suco, mas botou alguma porra, algum pozinho maldito, porque eu vi uma merda de um gnomo, um hobbit, sei lá, passar ali fora, correndo, caralho.
- Pra variar, é Bono botando defeito no restaurante.
- Mas você falou a verdade, man. Eu sempre levo Hipoglós quando vou pra Chapada, senão me fodo, uma perna roça na outra aí...
Paty Guaraná e Man continuaram falando sobre as opções do feriadão na Bahia. Falaram mais da Chapada, da praia de Jauá, de uma Choppada em Sauípe. Nada me interessava. Exceto a preferência pelo acarajé e vatapá, acho que não tenho nada da Bahia. Não tenho essa alegria toda. E meu feriadão seria apenas mais um sábado, um domingo e uma segunda. Talvez eu pegasse um filme. Se desse sorte, poderia comer alguém. Era isso que eu queria fazer no feriadão. Porra de Chapada. Eu queria escalar uma bucetuda. Uma mulher com a buceta bem grande para eu subir e descer.
Assim que terminamos de comer, fomos pagar a conta. Era numa espécie de cabana. Cheia de souvenirs, incensos, mandalas, não-sei-o-que-lá dos ventos e panfletos. Vários panfletos de massagens, óleos e bruxarias. A porra de soja deu 16 conto. Essa turma é louca, mas é esperta. Viva a natureza e dinheiro no bolso. Com 16 conto, eu batia dois pratos de caruru em Dona Irene.
- Confesse, Bono – disse Paty – tá se sentindo mais leve?
- Acho que ainda peso meus 120 quilos.
- EU VI, EU VI, EU VI, MAN!
- Viu o quê, menino? – disse Paty
- O duende. Eu vi o duende, man!
- Até você, Man? – disse Paty.
- Tem umas orelhinhas assim, né man? – perguntei.
- Umas orelhinhas de ponta, man. Ele é pequenininho. Correu ali pro canto.
- Tinha um shortinho vermelho?
- Acho que era roxo, um shortinho roxo, man.
- E aí, Man – eu atendi.
- E esse almoço, man?
- Tava pensando no de sempre. Lá em Dona Irene. Aquele vatapá fudendo.
- Paty Guaraná achou um lugar novo.
- Detesto esse lance de lugar novo.
- Vamos lá, man. A gente bota o papo em dia.
- Como é o nome dessa porra?
- Acho que é Açafrão, man.
- Açafrão?
- Gergelim. Acho que é Gergelim. Relaxe, man. A gente te pega aí.
- Merda.
Espinafre. Era o nome do lugar. Bem no meio do Rio Vermelho. Onde toda loucura pode acontecer. Para chegar ao local, você tinha que subir uma escadaria de pedras. No meio de uma mata. Mata mesmo. Araras, bicho preguiça, lobo guará, plantas alucinógenas, essas coisas. Lá dentro, tudo em tons pastéis, tudo zen, como eles dizem. No buffet, só havia folhas, raízes, grãos, essas palhaçadas. Botei no prato uma porra de soja, a única coisa que me parecia comestível. O cara que pesava os pratos, ele usava uma bata e tinha uma tatuagem na testa, olhou para mim com aquela cara, "seja bem-vindo, homem obeso, nós temos a salvação para você". Filho da puta.
Sentamos à mesa.
- Porra, Paty – eu disse –, comida vegetariana é foda.
- Pense que isso vai lhe fazer bem, Bono.
- O que é isso aí, man?
- Sei lá. Uma porra lá de soja.
- Olha só, tem até musiquinha – disse Paty.
- Enya – disse Man.
- Quando a gente tava subindo, vocês viram a cara da galera que tava descendo? Pareciam dopados. Em transe. Como se fossem zumbis.
- Vocês tão sentido esse cheirinho? – disse Paty – Acho que é sândalo.
- Sândalo o caralho – eu disse – aposto que eles colocam alguma porra na comida.
- Não começa não, Bono – disse Paty.
- Eu lembro que eu só estudava ouvindo Enya, man. Segundo grau. Bons tempos, man.
- É sério – eu disse –, olhe ao redor, Paty. Aqui só tem porra-louca. Olha aquele carinha, a barba cheia de trança.
- Mas tem umas gatas aqui, man.
- Esquece. Tudo com cabelo no suvaco.
- Gente, vamos pedir alguma coisa pra beber – disse Paty.
Então veio o garçom. Um velho de cabelo grande e branco. Tinha uns sete colares pendurados no pescoço. E acho que também tinha os olhos vermelhos.
- Eu quero um suco de abacaxi com hortelã – disse Paty.
- Suco de laranja, man.
- Uma Coca-Cola, só gelo.
- Não temos refrigerantes, senhor.
- Porra, só tem suco?
- Perfeito, sucos e chás.
- Porra, me vê um suco de limão.
- Perfeito.
- Não precisa colocar nada dentro. Só quero o suquinho mesmo, na manha.
- Perfeito.
Assim que o pajé saiu, continuamos a conversa.
- E esse feriadão, man?
- Eu tô branca demais, preciso de uma praia – disse Paty.
- Vou ficar em casa – eu disse.
- Porra de ficar em casa, man. Vamos pra Chapada.
- É uma boa – disse Paty.
- Porra de Chapada.
- Man, tem cada trilha de fuder.
- Porra de trilha. Eu sou algum sacana?
- Não adianta, Man – disse Paty – Bono não gosta de nada.
- Mas vale à pena, man. A gente encontra cada cachoeira do caralho.
Foi nessa hora que o Gandalf chegou com as nossas garapas.
- Sim, e depois? – perguntei a Man.
- Depois o quê, man?
- Depois da cachoeira, cacete, faz o quê?
- Depois volta pra pousada, Bono! – disse Paty!
- Esse é o problema. Você anda, anda, anda, escala, desce, pula, se fode todo pra encontrar uma porra de uma cachoeira. Grandes merdas. Mas vamos dizer que é uma cachoeira fudendo, linda, essa porra toda. Aí você toma banho na sua cachoeira, beleza, aí depois tem que andar tudo de novo, voltar a porra toda, se fuder tudo de novo. O saldo é negativo. Se por acaso, depois da cachoeira, viesse uma porra de um helicóptero, me pegasse e me levasse de volta pra pousada, tudo bem. Mas não, tem que andar tudo de novo. Pra ficar a noite toda passando Hipoglós no rabo, com a perna pra cima e você...porra, um duende!
- Hum?
- Um duende, porra. Eu vi um duende. Correndo ali fora!
- Ok, nada de Chapada – disse Paty.
- Eu não tô entendendo nada, man. Você quer dizer que tem duende na Chapada?
- Porra, eu quero dizer que aquele velho sacizeiro desgraçado não botou açúcar na porra do meu suco, mas botou alguma porra, algum pozinho maldito, porque eu vi uma merda de um gnomo, um hobbit, sei lá, passar ali fora, correndo, caralho.
- Pra variar, é Bono botando defeito no restaurante.
- Mas você falou a verdade, man. Eu sempre levo Hipoglós quando vou pra Chapada, senão me fodo, uma perna roça na outra aí...
Paty Guaraná e Man continuaram falando sobre as opções do feriadão na Bahia. Falaram mais da Chapada, da praia de Jauá, de uma Choppada em Sauípe. Nada me interessava. Exceto a preferência pelo acarajé e vatapá, acho que não tenho nada da Bahia. Não tenho essa alegria toda. E meu feriadão seria apenas mais um sábado, um domingo e uma segunda. Talvez eu pegasse um filme. Se desse sorte, poderia comer alguém. Era isso que eu queria fazer no feriadão. Porra de Chapada. Eu queria escalar uma bucetuda. Uma mulher com a buceta bem grande para eu subir e descer.
Assim que terminamos de comer, fomos pagar a conta. Era numa espécie de cabana. Cheia de souvenirs, incensos, mandalas, não-sei-o-que-lá dos ventos e panfletos. Vários panfletos de massagens, óleos e bruxarias. A porra de soja deu 16 conto. Essa turma é louca, mas é esperta. Viva a natureza e dinheiro no bolso. Com 16 conto, eu batia dois pratos de caruru em Dona Irene.
- Confesse, Bono – disse Paty – tá se sentindo mais leve?
- Acho que ainda peso meus 120 quilos.
- EU VI, EU VI, EU VI, MAN!
- Viu o quê, menino? – disse Paty
- O duende. Eu vi o duende, man!
- Até você, Man? – disse Paty.
- Tem umas orelhinhas assim, né man? – perguntei.
- Umas orelhinhas de ponta, man. Ele é pequenininho. Correu ali pro canto.
- Tinha um shortinho vermelho?
- Acho que era roxo, um shortinho roxo, man.
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Trilha
5.10.09
Meu Pau é Flamengo
1987. Um ano importante. Foi quando bati minha primeira punheta. Eu era apenas um gordinho de dez anos descobrindo os grandes prazeres da vida. Como correr pelo Largo da Lapinha. Jogar bola com os amigos. Passar a mão nas menininhas. Torcer pelo Flamengo. Foi a primeira vez que vi, conscientemente, o Flamengo ganhar um campeonato. Aquele time era demais. Zé Carlos, Jorginho, Leandro, Edinho, Leonardo, Andrade, Ailton, Zinho, Renato Gaucho, Bebeto e, o melhor de todos os tempos, o velho Zico. Lembro até que ganhei no bafo a figurinha de Jorginho, a última que faltava para completar o meu álbum de figurinhas. Se hoje ainda me resta algum resquício de autoestima, devo isso aquele ano, 87, quando o Flamengo sagrou-se o primeiro tetracampeão brasileiro.
Por isso não pensei duas vezes quando conheci essa putinha, a Janine. Ela trabalhava no arquivo de uma produtora de vídeo, onde passei um tempo dando uma de roteirista. Janine era feia, é verdade, mas tinha duas super bolotas de peitos que deixavam qualquer cacete duro. Conversamos vez ou outra, mas foi na festinha de fim de ano, que tomamos umas taças de vinho e nos conhecemos melhor.
- O vídeo de natal ficou lindo, Bono.
- Obrigado, Janine. Mas eu só escrevi os diálogos.
- Só não entendi aquela parte que você critica o panetone.
- Engraçado, como você fala a letra T.
- Sou pernambucana, ainda não perdi o sotaque.
- Pernambucana? Eu conheço uns caras de Recife.
- Acho que já tô tonta, Bono.
- Bons amigos, torcedores do Santa Cruz.
- Eu torço pro Sport.
- Porra, Janine, pro Sport?
- É sério. Pra mim, chega de vinho.
- Mas você sabe que o Flamengo é o verdadeiro campeão de 87?!
- Não, não sei. Não entendo nada de futebol. Digo que sou Sport por causa de meu pai.
- Janine.
- Hum.
- Vamos pra casa de minha avó? Ela tá viajando.
- Bono, eu acabei de sair de um relacionamento, você é...
- Lá tem um corredor bem grande. Você vai gostar.
- Corredor?
Tomamos mais um gole de vinho e deixamos a festinha. Entramos num táxi e fomos para a casa de minha avó, onde fui direto ao assunto.
- Tira a roupa.
- Poxa, é grande mesmo o corredor.
- Tira a roupa.
- Vá com calma, Bono, eu também tô a fim, mas tô tonta e...
- Tira a roupa, porra.
Janine tirou a roupa. Eu já planejava fazer uma espanhola supersônica, mas fiquei ali durante um tempo olhando para aqueles peitões mágicos.
- Agora corra – eu disse.
- O quê?
- Corra.
- Como assim, Bono?
- AGORA CORRA, PUTA, CORRA!
Foi quando bateu o desespero na cara de Janine e ela correu em direção à cozinha. Eu sempre quis ver uma peituda correndo alucinada por um corredor gigante. Então tirei a roupa e fui atrás dela. Encontrei Janine agachada, soluçando atrás da mesa. E com a cabeça do meu pau, dei três cutucadas em sua cabeça, e disse baixinho:
- Quer dizer que você é Sport?
Como eu disse, 87 foi um ano importante. Desses que a gente leva como referência para o resto da vida. Já foi até final de minha senha bancária. Eu sei, 87 ficou bem para trás. Já não vivo na Lapinha. Já não consigo jogar bola. Já não tenho amigos para jogar bola. E as menininhas já não querem saber de mim. Por isso me revolto e não aceito quando uns filhos da puta desinformados insistem em dizer por aí que o campeão brasileiro de 87 foi o Sport Recife, arrancando a única coisa boa que ainda me resta daquele ano e que está costurado no meu peito. Por isso naquela noite fiz questão de meter no rabo de Janine. Por isso meti com força. Por isso puxei seu cabelo e disse, 87 É NOSSO, SUA PUTA, 87 É DO MENGÃO. E só não enfiei meus ovos naquele rabo porque tive humildade em gol. Depois ela veio com aquele papo, você é louco, Bono. E eu disse, e se você falar mal do Zico, eu juro que como seu ouvido.
Por isso não pensei duas vezes quando conheci essa putinha, a Janine. Ela trabalhava no arquivo de uma produtora de vídeo, onde passei um tempo dando uma de roteirista. Janine era feia, é verdade, mas tinha duas super bolotas de peitos que deixavam qualquer cacete duro. Conversamos vez ou outra, mas foi na festinha de fim de ano, que tomamos umas taças de vinho e nos conhecemos melhor.
- O vídeo de natal ficou lindo, Bono.
- Obrigado, Janine. Mas eu só escrevi os diálogos.
- Só não entendi aquela parte que você critica o panetone.
- Engraçado, como você fala a letra T.
- Sou pernambucana, ainda não perdi o sotaque.
- Pernambucana? Eu conheço uns caras de Recife.
- Acho que já tô tonta, Bono.
- Bons amigos, torcedores do Santa Cruz.
- Eu torço pro Sport.
- Porra, Janine, pro Sport?
- É sério. Pra mim, chega de vinho.
- Mas você sabe que o Flamengo é o verdadeiro campeão de 87?!
- Não, não sei. Não entendo nada de futebol. Digo que sou Sport por causa de meu pai.
- Janine.
- Hum.
- Vamos pra casa de minha avó? Ela tá viajando.
- Bono, eu acabei de sair de um relacionamento, você é...
- Lá tem um corredor bem grande. Você vai gostar.
- Corredor?
Tomamos mais um gole de vinho e deixamos a festinha. Entramos num táxi e fomos para a casa de minha avó, onde fui direto ao assunto.
- Tira a roupa.
- Poxa, é grande mesmo o corredor.
- Tira a roupa.
- Vá com calma, Bono, eu também tô a fim, mas tô tonta e...
- Tira a roupa, porra.
Janine tirou a roupa. Eu já planejava fazer uma espanhola supersônica, mas fiquei ali durante um tempo olhando para aqueles peitões mágicos.
- Agora corra – eu disse.
- O quê?
- Corra.
- Como assim, Bono?
- AGORA CORRA, PUTA, CORRA!
Foi quando bateu o desespero na cara de Janine e ela correu em direção à cozinha. Eu sempre quis ver uma peituda correndo alucinada por um corredor gigante. Então tirei a roupa e fui atrás dela. Encontrei Janine agachada, soluçando atrás da mesa. E com a cabeça do meu pau, dei três cutucadas em sua cabeça, e disse baixinho:
- Quer dizer que você é Sport?
Como eu disse, 87 foi um ano importante. Desses que a gente leva como referência para o resto da vida. Já foi até final de minha senha bancária. Eu sei, 87 ficou bem para trás. Já não vivo na Lapinha. Já não consigo jogar bola. Já não tenho amigos para jogar bola. E as menininhas já não querem saber de mim. Por isso me revolto e não aceito quando uns filhos da puta desinformados insistem em dizer por aí que o campeão brasileiro de 87 foi o Sport Recife, arrancando a única coisa boa que ainda me resta daquele ano e que está costurado no meu peito. Por isso naquela noite fiz questão de meter no rabo de Janine. Por isso meti com força. Por isso puxei seu cabelo e disse, 87 É NOSSO, SUA PUTA, 87 É DO MENGÃO. E só não enfiei meus ovos naquele rabo porque tive humildade em gol. Depois ela veio com aquele papo, você é louco, Bono. E eu disse, e se você falar mal do Zico, eu juro que como seu ouvido.
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20.9.09
O Garoto
Era uma cidade pequena. Pequena e estranha. Não havia muito que fazer. Kurtz e eu apenas rodávamos em seu velho Mustang à procura de um bar. Era preciso beber para disfarçar o tédio daquela cidade.
- Eu era pilhado, Bono. Achava que iam invadir o país justo no dia que eu tava de sentinela.
- Só tem lan house nessa cidade.
- Sofri pra caralho no exército, Bono.
- Só lan house.
- Mas foi no exército que aprendi a acordar cedo.
- Outra lan house.
- Aprendi a acordar cedo e a ser leal.
- Tô fudido.
- Sou leal aos meus comandantes.
- Caralho de tanta lan house.
- Leal aos meus comandados.
- Até agora não vi uma McDonald´s.
- Leal à minha família.
- Lan House tem um monte.
- Leal aos Ramones.
- Ôpa, um bar!
Estacionamos. Antes de descer, Kurtz pediu para esperar. Então meteu a mão no bolso e tirou um saquinho. Era pó. Fez três filinhas sobre o painel do carro e meteu o nariz.
- Pensei que tinha parado com essa porra.
- Eu parei, Bono. Mas o garoto é foda.
- Que garoto?
- Você sabe, o garoto.
- Que porra de garoto?
- O diabo, porra. Ele fica ali. O tempo todo. E não adianta lutar, o garoto sempre vence.
- Ok. Mas vamos logo, que eu tô com fome.
Entramos no bar. Era uma espécie de pub. Um lugar agradável. Tocava rock. Pouca luz. Pouca gente. Uma mesa de sinuca. Sentamos e pedimos as bebidas.
- Gostei daqui, Bono.
- É, mas você reparou que tem duas lan houses ali na frente?
- Essa cidade é estranha. Já percebi isso.
- Tá vendo aquele cara?
- Qual?
- O coroa com cara de nazista.
- Que é que tem porra?
- Pedófilo.
- Puta que pariu, meu irmão. Para de julgar as pessoas.
- Pedófilo escroto.
- Se você fosse rico, magro, bonito e tivesse cabelo, ninguém ia te agüentar, porra.
- Uma amiga minha, dessas miúdas, sem peito, parecendo uma menina. Tinha um namorado que era a cara desse filho da puta aí. Eu já desconfiava que ele fosse pedófilo. Quando eles terminaram, ela me disse que na hora de fuder, ele gostava que ela ficasse imóvel, paradinha e calada, enquanto ele bulinava ela.
- Porra, Bono. Vamos pedir um tira-gosto.
Pedi pititinga. Kurtz foi de iscas de frango.
- Aquele de gravata, Bono.
- Que é que tem?
- No mínimo, no primeiro degrau das drogas, cheira pó.
- Ele é muito estranho mesmo.
- Eu sou um sobrevivente, Bono. Conheço.
O serviço era bom. A comida veio rápida. Junto com mais duas doses.
- Porra, Bono. Olha aquela ali.
- A baixinha?
- A de verde.
- A pititinga tá fudendo.
- Eu sou leal à minha mulher, Bono. Mas o garoto é foda. Mulher branquinha assim...
- É foda, você dá um tapa assim na bunda, fica aquela marca...
POW! POW! POW! – O FRANGO TÁ DURO, POOORRAAAAAA! – berrou Kurtz, dando três tiros para cima.
Lembro que um dos garçons foi o primeiro a correr. As mulheres gritavam. Os homens corriam. Alguns pulavam no chão. Depois se arrastavam o mais depressa que podiam. E em questão de segundos, Kurtz e eu éramos os únicos sentados naquele pub.
- Tá maluco, porra?
- O frango tá duro, Bono.
- Porra de frango. Que arma é essa, caralho?
- Esse frango me lembrou meus tempos de caserna, Bono. Prove aqui essa porra.
- Porra, acho que me caguei, caralho!
- ALGUÉM TROCA ESSA PORRA DESSE FRANGO!
- Caralho, me caguei!
Eu vou dizer uma coisa. Toda guerra é escrota. E o que mais tem por aí é filho da puta que só aparece na hora de receber a medalha, e desaparece logo que a bomba cai. Por isso é raro encontrar um cara como o Kurtz. Um comandante leal. Um amigo leal. Há os que o chamam de louco. Há os que o chamam de estúpido. Acho que é tudo isso também. Nos conhecemos numa guerra suja e perdida nas fronteiras de Sergipe. Mas ele vive pelas bandas do Recife. De tempos em tempos nos falamos. Um dia desses, às sete horas, de uma manhã de domingo, o telefone tocou. Era o Kurtz.
- Bono, PORRA!
- Comandante.
- Como é que tão as coisas?
- Você sabe, sobrevivendo.
- O garoto, Bono.
- Que é que tem o garoto?
- Acho que me livrei do garoto, Bono. Já faz um ano.
- De fuder.
- Tô só na erva.
- Na manha.
- E o blog?
- Na mesma.
- Escreve uma história nossa, porra.
- Vou escrever.
- Mas sem putinhas, porra. Você só sabe escrever negócio de putinhas.
- Ok, sem putinhas.
- Você é um soldado leal, Bono.
- Eu era pilhado, Bono. Achava que iam invadir o país justo no dia que eu tava de sentinela.
- Só tem lan house nessa cidade.
- Sofri pra caralho no exército, Bono.
- Só lan house.
- Mas foi no exército que aprendi a acordar cedo.
- Outra lan house.
- Aprendi a acordar cedo e a ser leal.
- Tô fudido.
- Sou leal aos meus comandantes.
- Caralho de tanta lan house.
- Leal aos meus comandados.
- Até agora não vi uma McDonald´s.
- Leal à minha família.
- Lan House tem um monte.
- Leal aos Ramones.
- Ôpa, um bar!
Estacionamos. Antes de descer, Kurtz pediu para esperar. Então meteu a mão no bolso e tirou um saquinho. Era pó. Fez três filinhas sobre o painel do carro e meteu o nariz.
- Pensei que tinha parado com essa porra.
- Eu parei, Bono. Mas o garoto é foda.
- Que garoto?
- Você sabe, o garoto.
- Que porra de garoto?
- O diabo, porra. Ele fica ali. O tempo todo. E não adianta lutar, o garoto sempre vence.
- Ok. Mas vamos logo, que eu tô com fome.
Entramos no bar. Era uma espécie de pub. Um lugar agradável. Tocava rock. Pouca luz. Pouca gente. Uma mesa de sinuca. Sentamos e pedimos as bebidas.
- Gostei daqui, Bono.
- É, mas você reparou que tem duas lan houses ali na frente?
- Essa cidade é estranha. Já percebi isso.
- Tá vendo aquele cara?
- Qual?
- O coroa com cara de nazista.
- Que é que tem porra?
- Pedófilo.
- Puta que pariu, meu irmão. Para de julgar as pessoas.
- Pedófilo escroto.
- Se você fosse rico, magro, bonito e tivesse cabelo, ninguém ia te agüentar, porra.
- Uma amiga minha, dessas miúdas, sem peito, parecendo uma menina. Tinha um namorado que era a cara desse filho da puta aí. Eu já desconfiava que ele fosse pedófilo. Quando eles terminaram, ela me disse que na hora de fuder, ele gostava que ela ficasse imóvel, paradinha e calada, enquanto ele bulinava ela.
- Porra, Bono. Vamos pedir um tira-gosto.
Pedi pititinga. Kurtz foi de iscas de frango.
- Aquele de gravata, Bono.
- Que é que tem?
- No mínimo, no primeiro degrau das drogas, cheira pó.
- Ele é muito estranho mesmo.
- Eu sou um sobrevivente, Bono. Conheço.
O serviço era bom. A comida veio rápida. Junto com mais duas doses.
- Porra, Bono. Olha aquela ali.
- A baixinha?
- A de verde.
- A pititinga tá fudendo.
- Eu sou leal à minha mulher, Bono. Mas o garoto é foda. Mulher branquinha assim...
- É foda, você dá um tapa assim na bunda, fica aquela marca...
POW! POW! POW! – O FRANGO TÁ DURO, POOORRAAAAAA! – berrou Kurtz, dando três tiros para cima.
Lembro que um dos garçons foi o primeiro a correr. As mulheres gritavam. Os homens corriam. Alguns pulavam no chão. Depois se arrastavam o mais depressa que podiam. E em questão de segundos, Kurtz e eu éramos os únicos sentados naquele pub.
- Tá maluco, porra?
- O frango tá duro, Bono.
- Porra de frango. Que arma é essa, caralho?
- Esse frango me lembrou meus tempos de caserna, Bono. Prove aqui essa porra.
- Porra, acho que me caguei, caralho!
- ALGUÉM TROCA ESSA PORRA DESSE FRANGO!
- Caralho, me caguei!
Eu vou dizer uma coisa. Toda guerra é escrota. E o que mais tem por aí é filho da puta que só aparece na hora de receber a medalha, e desaparece logo que a bomba cai. Por isso é raro encontrar um cara como o Kurtz. Um comandante leal. Um amigo leal. Há os que o chamam de louco. Há os que o chamam de estúpido. Acho que é tudo isso também. Nos conhecemos numa guerra suja e perdida nas fronteiras de Sergipe. Mas ele vive pelas bandas do Recife. De tempos em tempos nos falamos. Um dia desses, às sete horas, de uma manhã de domingo, o telefone tocou. Era o Kurtz.
- Bono, PORRA!
- Comandante.
- Como é que tão as coisas?
- Você sabe, sobrevivendo.
- O garoto, Bono.
- Que é que tem o garoto?
- Acho que me livrei do garoto, Bono. Já faz um ano.
- De fuder.
- Tô só na erva.
- Na manha.
- E o blog?
- Na mesma.
- Escreve uma história nossa, porra.
- Vou escrever.
- Mas sem putinhas, porra. Você só sabe escrever negócio de putinhas.
- Ok, sem putinhas.
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